4. Cinema, técnica e modernidade

Um dos fios condutores do pensamento teórico do alemão Walter Benjamin é a crítica ao determinismo e à linearidade histórica. A oposição também é feita em relação ao evolucionismo tecnológico e à racionalidade capitalista. Este caminho o  aproxima de seus pares da Escola de Frankfurt, centro de estudos vinculado ao Instituto de Pesquisas Sociais,  onde trabalhou na Alemanha, ainda que de forma irregular. No entanto, ele se contrapõe em outros aspectos a teóricos pares do instituto como Theodor Adorno, que o acusa de “utopismo tecnológico”, “idealizar a classe trabalhadora e suas aspirações pretensamente evolucionárias” e de ignorar “o alienante funcionamento social do cinema”. A crítica se dava pois, para Benjamin, a arte cinematográfica tinha potencialidades políticas importantes junto à classe revolucionária.

Michael Löwy explica esta possível contradição exposta acima lembrando que “A obra de arte…” foi escrita durante um “parêntese progressista” (entre 1936-1938), onde Benjamin se aproximou do “produtivismo” soviético (o texto se inspira, em algumas partes, nas experiências pós-revolução de 1917). Teria o autor alemão, desta forma,“uma adesão pouco critica às promessas do progresso tecnológico”. Estas conclusões, para Löwy, teriam sido repensadas depois com as decepções de Benjamin em relação ao modelo soviético.

Mas, ao olharmos para o percurso geral de Benjamin em livros como Passagens (Das Passagen-Werk, escrito entre 1927 e 1940, o seu extenso projeto fragmentário, não-linear e inacabado), encontramos elementos que auxiliam a entender o impasse entre um anti-evolucionismo, de um lado, e a confiança nas possibilidades revolucionárias de alguns novos meios como o cinema, de outro.

É importante ponderar que a reflexão de Benjamin sobre o cinema insere-se na sua tentativa em compreender a modernidade como produção coletiva, em seus elementos materiais e simbólicos. A modernidade seria dirigida e direcionada sim, pela classe hegemônica, mas faria parte de modificações mais amplas, efetuada por uma complexa trama de sujeitos, técnicas, experiências e percepções (o cinema é apontado como “criação da coletividade”, do modo como vimos acima).

Marx e Engels, ao falarem sobre o capital, apontam ser ele “um produto coletivo, e só pode ser posto em movimento pelos esforços combinados de muitos membros da sociedade em última instância pelos esforços combinados de todos os membros da sociedade”.

Desta maneira, quando a classe trabalhadora utiliza os novos meios num sentido revolucionário, não tomaria algo externo a si, mas retomaria o que lhe pertence, na condição de atriz invisível do processo histórico, dentro das engrenagens que ela faz girar, mas não delas não é proprietária.

walter_benjamin
Walter Benjamin

Para refletir sobre as mudanças importantes da modernidade, em Passagens Benjamin recorre a um panorama do século 19, onde ele pensa a modernidade a partir de suas transformações técnicas, culturais/subjetivas e econômicas. As inovações no campo da representação, das artes e da comunicação não seriam consequências das mudanças estruturais e econômicas, mas uma de suas expressões. Em suas palavras, “não se trata de apresentar a gênese econômica da cultura e sim a expressão da economia na cultura”. No lugar de fazer uma separação estanque e vertical entre os aspectos materiais e imateriais (infraestrutura e superestrutura, respectivamente), Benjamin busca a expressão da produção moderna nas formas concretas da técnica material e do modo de produção, onde seria revelada a sua expressão cultural e, por sua vez, a sua cultura.

O método benjaminiano de conhecimento histórico baseia-se na experiência dos indivíduos modernos frente aos aparelhos e as transformações culturais, como o cinema, a fotografia, as vanguardas artísticas e as construções urbanísticas. Ele compreende estas mudanças modernas não como resultados acabado de uma invenção ou inovação específica, mas como parte de transformações materiais e intelectuais amplas na vida, resultado, também, da atualização de mitos civilizacionais do passado.

Ao concluir estas observações, Benjamin  diz que o cinema é a forma de arte que melhor sintetizava os perigos existenciais de seu tempo, pois “corresponde a modificações profundas no aparelho perceptivo, como as que experimenta o passante, numa escala individual, quando enfrenta o tráfico, e como as experimenta, numa escala histórica, todo aquele que combate a ordem social vigente”.

Para o escritor, “dentre as funções sociais do cinema, a mais importante é criar um equilibro entre o homem e o aparelho”. Benjamin acreditava que o filme..

“serve para exercitar o homem nas novas percepções e reações exigidas por um aparelho técnico cujo papel cresce cada vez mais em sua vida cotidiana. Fazer do gigantesco aparelho técnico do nosso tempo o objeto das inervações humanas- e essa a tarefa histórica cuja realização dá ao cinema o seu verdadeiro sentido”.

Para Benjamin, assim como o indivíduo dos primeiros tempos da humanidade teve que aprender a agir diante do mundo natural, desenvolvendo suas técnicas e tecnologias para manipulá-lo e controlá-lo, o aparato técnico da modernidade apresentava-se, agora, como uma “segunda natureza”. Segundo ele, ao nos confrontarmos com esta “segunda natureza” que criamos, mas não mais controlamos, somos obrigados a aprender novamente, como ocorreu na primeira natureza.

Mas Walter Benjamin não é ingênuo em acreditar numa plena possibilidade emancipatória de reapropriação do cinema dentro da sociedade de classes. Olhar para o cinema e as lutas sociais é, para ele, pensar um projeto político e cultural dos movimentos sociais e demais críticos anti-sistema frente aos desafios colocados pela modernidade. Ele fala de sujeitos históricos que se deparam com um tempo onde não foram satisfeitas as aspirações de liberdade, justiça social, da democratização do conhecimento e do poder político, mesmo com as transformações técnicas. Ou, como afirma Benjamin, este tempo “não soube responder às virtualidades técnicas com uma nova ordem social”. Portanto, esta ação só poderia ser completa, para o autor, quando os meios de produção intelectuais fossem retirados do poder econômico, numa sociedade sem dominação de classe.

Contudo, como aponta Benjamin, as técnicas da modernidade (como o cinema e a
fotografia) possibilitaram, desde seu nascimento, novas formas potenciais de
reconfigurações na geografia das representações. A comunicação e as artes se depararam, desde o início do cinema, com uma participação ativa de ações contra-hegemônicas nas transformações da técnica, das linguagens, da tecnologia, mesmo sendo elas socialmente hegemonizadas pelo poder econômico.

Em cada instantâneo histórico, por consequência, pode-se vislumbrar os sinais de sujeitos em movimento em ação de transformações da técnica, das relações culturais, trazendo novas possibilidades para pensar além dos exclusivismos da produção intelectual e do poder em relação à visibilidade. Em suma: restituir ao indivíduo algo que deveria lhe pertencer: a sua própria imagem.

Fotografia do post: Fernando de Tacca

*

Nota

1- O conceito de modernidade, utilizado por Benjamin, foi criado e desenvolvido pelo poeta Charles Baudelaire ao longo de sua obra e expressa as mudanças da cidade no século 19, tendo Paris como a referência mais representativa. Baudelaire reflete sobre uma sociedade que passa a ser majoritariamente urbana, caracterizada por um indivíduo que se perde, ao mesmo tempo em que se asila na multidão e nos estímulos da mercadoria: o chamado flâneur. Além disso, observa os efeitos das reformas urbanísticas, que moldaram os grandes centros e as suas ruas largas, assim como os espaços de exposição, apelo ao consumo e às imagens que o cerca.

Referências bibliográficas

BENJAMIN, Walter. Passagens . Belo Horizonte/São Paulo: Editora UFMG/Imprensa Oficial. 2006.

ELGELS, Friedrich, MARX, Karl. Manifesto comunista. São Paulo: Boitempo Editorial, 1998.

LÖWY, Michel. Walter Benjamin: aviso de incêndio- uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005.

STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. Campinas: Papirus, 2006.

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Este artigo faz parte do projeto CineMovimento. Saiba mais 

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