3. Cinema: uma “criação da coletividade”

O francês Marc Ferro, em Cinema e história, expõe elementos metodológicos para o historiador diante do documento cinema. Já o teórico alemão Walter Benjamin realiza um exercício teórico de caráter ensaístico, filosófico e poético, sobre a relação entre imagem, montagem e história. Contudo há, nos dois autores, pontes possíveis: Para Ferro, “o historiador tem por função primeira restituir à sociedade a História da qual os aparelhos institucionais a despossuíram.” Desta forma, pode “confrontar os diferentes discursos da História, a descobrir, graças a esse confronto, uma realidade não visível.” Assim, “o filme tem essa capacidade de desestruturar aquilo que diversas gerações de homens de Estado e pensadores conseguiram ordenar num belo equilíbrio.”

Ao longo de Cinema e História, Ferro propõe uma série de reflexões e ferramentas para compreender o documento cinema na prática historiográfica, tais como a “leitura histórica do filme” e a “leitura cinematográfica da história”; as relações dialéticas entre a “sociedade que produz” o filme e “a sociedade que o recebe” e as nuances ideológicas presentes em elementos da linguagem fílmica, como a montagem.

Walter Benjamin acredita ser importante compreender a história como algo definido pela contínua derrota dos oprimidos, com a vitória política, econômica e discursiva da classe dominante. Para ele, no lugar de seguir a “marcha” do “cortejo de triunfo que conduz os dominantes de hoje (a marcharem) por cima dos que, hoje, jazem por terra”, propõe ler a história do ponto de vista dos “vencidos”.

O autor aponta o cinema como importante ferramenta das construções históricas/narrativas e das políticas de visibilidade. Mas, podemos fazer uma pergunta: seria ele um meio reapropriado pelos movimentos sociais para munir seu contra-ataque? Em outras palavras: seu uso pelos grupos oprimidos seria apenas devolução e ressignificação de um instrumento “natural” do opressor?

Para tentar esmiuçar a pergunta acima, de difícil resposta, vale a pena se deter nas ambivalentes análises de Benjamin sobre arte, cinema e a modernidade. Parafraseando Marx, ele afirma, em “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, que o sistema capitalista criava as condições para a sua própria supressão. Portanto, o cinema, mesmo sendo uma invenção do capitalismo, poderia ter alto potencial expressivo-emancipatório para as classes dominadas.

Benjamin mostrou o possível potencial da fotografia, do cinema, do disco e outras invenções dentro de muitas destas transformações da maneira de compreender a obra artística. A arte, até então, existia como uma experiência “ritualística”, “mágica”, “religiosa”, em torno da obra possuidora de uma “aura”, ou seja, seu caráter de ser única. A relação com as artes era, anteriormente, realizada apenas no “aqui e agora” da experiência “em presença”, especialmente no museu ou na igreja. Nestes lugares acessaríamos a originalidade do trabalho do artista, num momento estético do encontro sagrado. (Para Benjamin, a aura é “composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja”).

Com as formas de reprodução técnica da fotografia e do cinema, inaugurava-se uma nova perspectiva na maneira de se participar do processo. A arte passa da experiência individual, em torno da “aura”, para a “criação da coletividade”, como acredita o autor. Esta relação, historicamente fundada no ritual, “passa a fundar-se em outra práxis: a política”. Benjamin afirma, portanto, que “a reprodutibilidade técnica de um filme tem seu fundamento imediato na técnica de produção”.

Walter Benjamin vê o cinema como campo propício para a formação de um autor produtor- o artista agindo nas transformações dos meios de produção
intelectuais e se inserindo dentro deste processo. Ele repensa o papel da autoria na produção de sentido nas artes e na comunicação, observando algumas relações entre o campo artístico e político, vendo o cinema como importante palco destas mudanças.

A concepção de “autor como produtor” foi aplicada ao cinema em “A obra de arte…”, mas desenvolvida de forma mais ampla em seu texto anterior, “O autor como produtor”, de 1934. Tendo como ponto de partida as reflexões sobre o escritor revolucionário, o artigo caminha entre o jornalismo, o teatro de Brecht e o cinema, pensando na necessidade da modificação da arte a partir da técnica e do modo de produção cultural/intelectual e na necessidade do artista ser um agente produtor destes deslocamentos.

Benjamin repensava a crítica materialista da época, a qual perguntava ao escritor engajado politicamente como ele se posicionava acerca das relações sociais de produção. Ele, no entanto, propõe fazer outra pergunta: “Antes, pois, de perguntar como uma obra literária se situa no tocante às relações de produção da época, gostaria de perguntar: como ela se situa dentro destas relações?” (grifo meu). A relação direta de transformação do processo onde o autor estava inserido é que deveria ser observado e não uma simples tomada de posição política.

Benjamin dá o exemplo dos jornais soviéticos e o trabalho do escritor Sergei Tretiakov junto a eles. Lá, o povo cada vez mais sentia a necessidade de reivindicar seus anseios, expressar suas opiniões e experiências, obrigando o jornalismo a criar mais espaços para colaborações. Os jornais citados por Benjamin contestavam a distância convencional entre autor e público, criada artificialmente, segundo ele, pela imprensa do ocidente,  a qual chama de burguesa. Ainda sobre a imprensa incentivada por Tretiakov, afirma: “Nela, o leitor está sempre pronto, igualmente, a escrever, descrever, prescrever. Como especialista- se não numa área de saber, pelo menos no cargo onde exerce as suas funções – ele tem acesso à condição de autor.” Para Benjamin, o aparelho de produção “é tanto melhor quanto mais conduz consumidores à esfera da produção, ou seja, quanto maior for sua capacidade de transformar em colaboradores os leitores ou espectadores”.

tretyakov
Sergei Tretyakov

O autor alemão aponta, então, uma transformação no agir literário e artístico, quando este não é mais fundado numa “formação especializada” do exclusivismo de quem escreve sobre tudo, possuindo o status social de produtor do conhecimento (usando o conceito de “logogracia”- ou “reinado dos intelectuais”). Em seu lugar, propõe uma “formação politécnica”, feita por todos, onde o conhecimento de cada trabalhador, cada indivíduo, serviria para construir uma vasta e diversa superfície intelectual.

O progresso citado por Benjamin, na estrutura da escrita, está na possibilidade de não haver mais apenas o especialista responsável pelo privilégio da informação e sim uma multiplicidade de vozes. A qualidade da politização do autor está em como ele colabora para que as estruturas culturais se modifiquem, possibilitando uma verdadeira revolução de rompimento com a estrutura de produção intelectual vigente.

Benjamin desconstrói a dicotomia entre qualidade literária e politização, pois a tendência política incluiria a tendência literária. A “qualidade” da arte politicamente orientada daria-se quando a obra e os processos a qual ela participa são modificados, revolucionados, criando novas possibilidades artísticas, culturais e políticas.

Para o autor, referindo-se à produção literária alemã contemporânea ao texto, “o aparelho burguês de produção e publicação pode assimilar uma surpreendente quantidade de temas revolucionários, e até mesmo propagá-los, sem colocar em risco sua própria existência e a existência das classes que o controlam”. Ao pensar uma arte revolucionário e um “autor como produtor”,  Benjamin propõe as seguintes questões: “Consegue ele promover a socialização dos meios de produção intelectual? Vislumbra caminhos para organizar trabalhadores intelectuais no próprio processo produtivo?

Ele cita Bertolt Brecht e seu conceito de “refuncionalização”, característica atribuída às produções artísticas progressistas interessadas “na liberação dos meios de produção, a serviço da luta de classes”. O dramaturgo, como aponta Benjamin, coloca como fundamental a exigência de não abastecer o aparelho de produção sem modificá- lo. “De forma semelhante, Walter Benjamin, a partir das observações sobre Tertiakov, chama a atenção para a necessidade de um escritor “operante”, cuja missão “não é relatar, mas combater; não ser espectador, mas participante ativo.”

Em “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” o teórico aponta o possível potencial da fotografia e do cinema dentro de muitas destas transformações da maneira de compreender a obra. Benjamin retoma a ideia de “autor como produtor”, vislumbrando o cinema como uma potencialidade para estas propostas. Novamente, volta à questão da “formação politécnica” em oposição a um “autor especialista”. Segundo ele, o cinema possibilita esta construção coletiva por sua própria natureza. A proposta de “formação politécnica”, seria totalmente aplicável a este meio, “onde se realizaram, numa década, deslocamentos que duraram séculos no mundo das letras”.

Benjamin acreditava que a mudança em relação à distância entre receptor e emissor já se completara em grande parte na experiência cinematográfica. Esta transformação podia ser vista principalmente, segundo ele, no cinema soviético, onde os atores não eram profissionais e sim pessoas do povo se auto-representando. Ali, dentro do contexto histórico dos avanços técnicos dos anos 30, estaria algo diferente do especialista soberano.

Para o autor, “cada pessoa, hoje em dia, pode reivindicar o direito de ser filmada”. A concepção de autor único, das artes até então, seria questionada, nesta nova possibilidade.

Portanto, se décadas mais tarde Andy Warhol falaria de um futuro onde todos teriam “seus quinze minutos de fama”, a modernidade em potência observada por Benjamin indicava a imagem dos sujeitos como um direito, questionando também, deste modo, enunciações, autorias e lugares estabelecidos nos processos artísticos.

Fotografia : Felipe Garcia

Referências Bibliográficas

BENJAMIN, Walter. Passagens . Belo Horizonte/São Paulo: Editora UFMG/Imprensa Oficial. 2006.

BENJAMIN. “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” “O autor como produtor” e “Sobre o conceito de história”. In BENJAMIN, WALTER, Obras escolhidas I: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 2012.

FERRO, Marc. Cinema e história. São Paulo: Paz e Terra, 1992.

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Este artigo faz parte do projeto CineMovimento. Saiba mais 

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